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Bolo quatro quartos de chocolate aromatizado com cumaru-de-cheiro ou umburana

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Passeando pelas postagens de uma comunidade francesa de blogueiros que participo, encontrei uma receita de bolo quatro quartos. Nunca havia preparado essa massa e achei que seria uma boa oportunidade de testar. O bolo quatro quartos consiste na mistura de quatro ingredientes principais com pesos equivalentes. É uma “receita de cabeça” que não tem erro: açúcar, ovos, manteiga e farinha de trigo em proporções iguais, mais o fermento e o aroma que desejar. A versão que apresento seria mais um cinco quintos, já que acrescento o chocolate meio-amargo para deixar a sessão da tarde mais prazerosa.

O cumaru amazonense (Dipteryx odorata), de uso medicinal secular por aquela população e já conhecido nas perfumaria e cosmetologia internacionais, há alguns anos está em voga na vitrine gastronômica. Chamado de baunilha brasileira, o cumaru possui aromas que viajam entre aquela especiaria e a amêndoa, entre o cravo e a canela. Na verdade, a cada vez que experimento, descubro um aroma diferente. Pessoalmente, percebo o cheiro abaunilhado, mas o gosto me parece quase herbáceo, talvez pelas propriedades medicinais desse produto que de alguma forma se ligam à memória dos xaropes caseiros que mainha fazia em minha infância. E foi através dessa memória solta que cheguei à umburana, imburana, cumaru-de-cheiro, cumaru-do-ceará ou cumaru-da-caatinga (Amburana cearensis). Essa semente típica do sertão brasileiro, meu terroir, também possui a substância cumarina, daí o cheiro tão parecido com o do cumaru, embora mais sutil.

Conhecida da medicina popular, a umburana virou ingrediente no Chaud Patate para aromatizar o bolo de chocolate, cuja receita rende cinco bolinhos individuais. O resultado do experimento foi mais que satisfatório. É possível substituir (gastronomicamente) o cumaru pelo cumaru-de-cheiro. Se o ingrediente da moda está custando, em média, R$ 120/Kg, a umburana sertaneja pode ser encontrada por menos da metade do preço na internet ou a preço de banana na sua região de origem. Se o cumaru vem da floresta amazônica, de clima úmido e de incrível biodiversidade, a umburana dá é no sertão nordestino, na caatinga que, a despeito do que se possa imaginar, tem uma biodiversidade também digna do adjetivo incrível. Quer coisa mais incrível que um umbuzeiro verdejante em plena seca? Aliás, se quiser descobrir sobre o delicioso fruto dessa outra árvore sertaneja, veja essa sobremesa de umbu concebida pelo ChoPa.

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Sementes de umburana, à esquerda, e de cumaru, à direita.

E já que falamos de umbu (ou imbu), você sabe a origem da palavra umburana ou imburana ou emburana ou amburana (variações regionais)? Já dá pra desconfiar? Pois então! Imburana vem do tupi y-mb-ú (árvore que dá de beber) e ra-na (semelhante a, falso), ou seja, falso umbu. O fruto da umburana se assemelha bastante ao do umbuzeiro, essa árvore cujas raízes armazenam água que pode matar a sede humana em périodos de seca extrema. Já a semente tem gosto e aroma parecidos com o cumaru. Parece que a fruta foi catando características em outras naturezas pra compor sua beleza própria. Curiosidade histórica, a madeira dessa árvore foi matéria-prima para canoas feitas tanto por indígenas quanto por colonizadores. Li em um blog de educação ambiental que o perfume de sua madeira permanece nos móveis com ela realizados – ainda que a madeira seque, esse cheirinho ainda exala quando bate o vento. Li essa informação e já comecei a imaginar um filé de peixe ou um lagostin defumado com madeira de umburana. Aquelas que querem comer tudo o que vêem. 😀

Fruto da umburana, muito semelhante ao umbu. Fonte: dsoriedem.blogspot.com.br

Mas encerrando nosso papo, passemos à receita do bolo. Eu servi o bolinho acompanhado de doce cremoso de jaca mole e de algumas bagas de jaca dura cozidas em calda aromatizada com cravos, ambas receitas de mainha que despachou o sedex do amor lá de Conquista até Porto Alegre só pra me fazer esse carinho e amenizar as saudades de casa, as saudades do meu terroir. Quando eu digo que mãe não é madrasta! 🐱

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  • 100 g de ovos (2 unidades)
  • 100 g de açúcar
  • 100 g de farinha de trigo
  • 100 g de manteiga
  • 100 g de chocolate meio amargo 63%
  • 6 g de fermento químico
  • 2 sementes de umburana, a versão econômica do cumaru, ou 1/2 cumaru

Derreta, em banho-maria, o chocolate com a manteiga. Em uma tigela, bata os ovos com o açúcar até dobrar de volume. Misture ao chocolate derretido e incorpore a farinha de trigo peneirada. Adicione o fermento químico e as sementes de umburana raladas. Distribua a massa em cinco formas de silicone para bolinhos individuais e leve ao forno pré-aquecido a 180°C por aproximadamente 30 minutos. Sirva com o doce, calda ou compota de sua preferência. Prefira consumir o bolo no dia seguinte, quando os aromas da umburana estarão mais fortes.

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